sábado, 24 de junho de 2017

Trovoa

Minha cabeça trovoa
Sob meu peito te trovo
E me ajoelho
Destino canções
Pros teus olhos vermelhos
Flores vermelhas, vênus, bônus
Tudo o que me for possível
Ou menos
(mais ou menos)
Me entrego, me ofereço
Reverencio a sua beleza
Física também
Mas não só, não só
Graças a Deus você existe
Acho que eu teria um troço
Se você dissesse que não tem negócio
Te ergo com as mãos
Sorrio mal
Mal sorrio
Meus olhos fechados te acossam
Fora de órbita
Descabelada
Diva
Súbita, súbita?
Seja meiga, seja objetiva
Seja faca na manteiga
Pressinto como você chega, ligeira
Vasculhando a minha tralha
Bagunçando a minha cabeça
Metralhando na quinquilharia
Que carrego comigo
(clipes, grampos, tônicos)
Toda a dureza incrível do meu coração
Feita em pedaços?
Minha cabeça trovoa
Sob teu peito eu encontro
A calmaria e o silêncio
No portão da tua casa no bairro
Famílias assistem tv
(eu não)
Às 8 da noite
Eu fumo um marlboro na rua
Como todo mundo e como você
Eu sei
Quer dizer
Eu acho que sei?
Eu acho que sei?
Vou sossegado e assobio
E é porque eu confio
Em teu carinho
Mesmo que ele venha num tapa
E caminho a pé pelas ruas da lapa
(logo cedo, vapor? acredita?)
A fuligem me ofusca
A friagem me cutuca
Nascer do sol visto da vila ipojuca
O aço fino da navalha me faz a barba
O aço frio do metrô
O halo fino da tua presença
Sozinha na padoca em santa Cecília
No meio da tarde
Soluça, quer dizer, relembra
Batucando com as unhas coloridas
Na borda de um copo de cerveja
Resmunga quando vê
Que ganha chicletes de troco
Lembrando que um dia eu falei
"sabe, você tá tão chique
Meio freak, anos 70
Fique
Fica comigo
Se você for embora eu vou virar mendigo
Eu não sirvo pra nada
Não vou ser seu amigo
Fique
Fica comigo? "
Minha cabeça trovoa
Sob teu manto me entrego
Ao desafio de te dar um beijo
Entender o teu desejo
Me atirar pros teus peitos
Meu amor é imenso
Maior do que penso
É denso
Espessa nuvem de incenso
De perfume intenso
E o simples ato de cheirar-te
Me cheira a arte
Me leva a marte
A qualquer parte
A parte que ativa a química
Química?
Ignora a mímica
E a educação física
Só se abastece de mágica
Explode uma garrafa térmica
Por sobre as mesas de fórmica
De um salão de cerâmica
Onde soem os cânticos
Convicção monogâmica
Deslocamento atômico
Para um instante único
Em que o poema mais lírico
Se mostre a coisa mais lógica
E se abraçar com força descomunal
Até que os braços queiram arrebentar
Toda a defesa que hoje possa existir
E por acaso queira nos afastar
Esse momento tão pequeno e gentil
E a beleza que ele pode abrigar
Querida nunca mais se deixe esquecer
Onde nasce e mora todo o amor

Mauricio Pereira

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

"Perceber aquilo que se tem de bom no viver é um dom
Daqui não, eu vivo a vida na ilusão
Entre o chão e os ares, vou sonhando em outros ares
Vou fingindo ser o que já sou, fingindo ser o que já sou
Mesmo sem me libertar, eu vou
É, Deus, parece que vai ser nós dois até o final
Eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro
De que vale ser aqui
De que vale ser aqui onde a vida é de sonhar
Liberdade"

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Quais são as cores e as coisas?

Eu queria ver no escuro do mundo.

Sobre a montanha russa que a ansiedade adora brincar.
Agora ela está parada lá na curva mais alta. Quase de cabeça para baixo.
Quando tudo estiver em silêncio e quando o coração bater bem devagar.
Quando a respiração for quase imperceptível.
Mantenha-se como está.
E se agarre ao que for preciso para que esse momento continue e dure.
Sossegue.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Me diz se assim está em paz, achando que sofrer é amar demais

Volto quatro anos depois porque preciso.
Volto pra ver se diminui a febre de sentir,
Precisei viver 28 anos e virar a cara para Pessoa muitas vezes para descobrir que ele escreveu o que eu sinto. Ele escreveu o que eu gostaria de ter escrito. Pessoa, lúcido da vida que não dá afagos, disse exatamente o que experimento. 
Sobre a saudade das coisas que nunca aconteceram, essas são as que mais doem. É sobre uma das coisas que ele mais fala, do que li até agora.
Livro do desassossego. Desassossega sem clichê. Com clichê. Os sentimentos mais comuns são clichês. São ridículos. As frases mais ditas, são mais ditas porque são verdadeiras. E por isso é lugar comum.
É medíocre, no sentido literal da palavra.
Volto quatro anos depois porque preciso.
É medíocre voltar porque preciso. Nunca deveria ter te deixado aqui, tão sozinho nesses quatros anos.
2015.
2015. Um tapa na cara, a vida grita e me chama pra viver.
Aí, eu aprendi que a literatura, junto à psicologia, salva.
Então, debruço aqui novamente todo o peso de viver. (Como ela é dramática!)
E aqui venho buscar suporte na vida, que não dá trégua e desacomoda.
Frases prontas atrás de frases prontas. Por isso livro de auto-ajuda faz tanto sucesso. Mentira.
Achei em Pessoa e em Gutfreind o que precisava para estar aqui agora.
Volto quatro anos depois.
Queria escrever poesia. Seria menos pesado o sentir.
Queria escrever música.
Então, junto essas letras e surge isso aqui. E me confundo mais. 
É o afã de querer entender o que acontece.
Vou organizando para me ver livre.