sexta-feira, 21 de junho de 2019

O cara da camisa jeans

Era sábado, estava quente e eu estava com meu vestido de bolinha, da época da gravidez, e meu all star da época da adolescência. Entrei no bar sozinha, porque perdi minhas amigas na entrada. Desci e fui pra rua com um amigo. Não tínhamos muito assunto, então fiquei lá meio perdida. Até que vi três pessoas. Uma delas veio me abraçar toda sorridente, era uma old friend queridona e linda. Junto dela tinham duas pessoas, que não cumprimentei por total falta de educação. Talvez a história teria sido diferente se eu tivesse dado oi para elas. Talvez.
Porque uma dessas pessoas, bateu em mim. Sabe quando a gente olha pra alguém e bate.
Mas ela não me viu, continuou conversando com a old friend num papo super animado. Falavam do show do Francisco el Hombre no Pepsi, no ano passado. Eu ouvi, eu esticava meu ouvido pra ouvir porque alguém ali tinha batido.
Eu chamei ele a noite toda de "o cara da camisa jeans", era a única coisa que eu sabia dele. Camisa jeans e boné. Alto, tatuagens que fugiam pela manga da camisa meio dobrada até o cotovelo. E o sorriso. 
O sorriso.
Era a única coisa que eu sabia dele: a camisa jeans, o boné, as tatuagens e o sorriso.
A noite continuou. Enquanto a banda tocava, ele estava parado do meu lado, imerso no som, eu fingindo que não estava vendo ele. Ele imerso no som.
A noite continuou.
"O cara da camisa jeans quer te conhecer"
Fiquei muda, murchei, não sei agir nesses momentos. Talvez se eu não soubesse dessa informação as coisas teriam sido diferentes.
"O cara da camisa jeans já sabe teu nome, teu insta, já viu as fotos e vídeos da tua filha. Ele quer te conhecer".
 Eu, gelada, bebendo cerveja atrás de cerveja pra ver se a coragem vinha. 
Subimos pro camarim da banda. Eu nem olhava na cara dele. Fumaça, conversas.
Ele desceu pra sentar na mesa com meia dúzia de gente desconhecida.
"O cara da camisa jeans ta te chamando pra sentar lá com a gente, vamos?"
Fui, sem jeito, sem assunto, errada, estranhamente estranha, não era eu.
Me deu a mão, me disse seu nome. Eu, estranha. Não falava coisa com coisa. Parecia que eu sabia o que estava prestes a acontecer nas próximas semanas...

Continua...

Grande Sertão: Veredas

"Meu era um alívio. Mesmo não duvidei de meu menor valer: alguém lá tem a feição do rosto igualzinha à minha? Eh, de primeiro meu coração sabia bater copiando tudo. Hoje, eu desconheço o arruído rumor das pancadas dele. Diadorim veio para perto de mim, falou coisas de admiração, muito de afeto leal. Ouvi, ouvi, aquilo, copos a fora mel de melhor. Eu precisava. Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e as coisas, não são de verdade! E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades? Será que, nós todos, as nossas almas já vendemos! Bobéia, minha. E como é que havia de ser possível? Hem?!"

Um dos meus favoritos. Gracias, Guimarães Rosa

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Someone Great

"Acha que pode me dar mais um beijo? Encontrarei um fim nos seus lábios e irei embora. Talvez também mais um café, mais um almoço, mais um jantar. Ficarei cheia e feliz e poderemos ir embora. Mas, entre as refeições, talvez possamos nos deitar mais uma vez. Mais um momento prolongado em que o tempo é indefinidamente suspenso e eu descanso a cabeça no seu peito. Minha esperança é a de que esses "mais uns" cheguem a uma vida e eu nunca chego na parte que te deixo partir.
Mas não é real, é?
Não existem "mais uns".
Eu te conheci quando tudo era novo e emocionante e as possibilidades do mundo pareciam infinitas. E ainda são, para mim e para você. Mas não para nós.
Entre algum lugar entre aquela época e agora, não acho que nos distanciamos, mas crescemos.
Quando algo se quebra, se os pedaços forem grandes o bastante, dá pra consertar.
Infelizmente, às vezes as coisas não se quebram, se estilhaçam.
Mas, quando deixamos a luz entrar, o vidro estilhaçado brilha.
E, nesses momentos, quando o sol bater nos cacos do que fomos, só vou me lembrar do quanto foi lindo, do quanto foi sempre lindo. Porque fomos nós. E nós fomos mágicos."

Someone great, 2019


terça-feira, 18 de junho de 2019

A Cool


A ambulância chegou antes do acidente. Parou e ficou esperando o carro vir e bater no muro da escola. Eles sempre chegavam antes, já percebendo o que aconteceria logo após. Lá de dentro, Clarice assistia a tudo com um chocolate à mão e uma percepção que era quase lógica naquele momento. Ela adorava assistir a resgates. Era um gosto inusitado a uma garota de 17 anos, loira, baixinha e com um sorriso bom. Talvez por isso mesmo ela gostava de coisas obscuras assim. Poderia ser também um jeito de fugir da futilidade que lhe perseguia. Aquelas princesinhas de salto alto que a perseguiam, por Clarice ser a filha do Sr. Gastor. 
O carro veio com uma velocidade que não fez tanto estrago. De dentro dele saiu uma senhora chiquérrima e com uma cara de quem tinha mais uns 347 carros na garagem. Totalmente cortada pelos cacos de vidro que se quebraram com a batida, porém viva. Viva, andando e xingando os pobres buracos que a fizeram ir de encontro ao muro da escola. 
Clarice via aquela situação com uma alegria escondida. 
O sinal tocou e Clarice voltou para seus livros.
As coisas lá já não eram como antes. Clarice sempre foi a garota prodígia da escola, por isso estava cursando seu último ano naquele lugar, e sonhando com a tão querida viagem a Londres.
Ela era cool ! Escutava músicas que ninguém gostava, usava umas roupas bregas ao olhar daquelas outras meninas e era a única que conversava com Mar. Omar era assim conhecido por aqueles que se atreviam lhe dirigir alguma palavra e educação. Clarice era uma das poucas pessoas que isso faziam. Deveria ser odiada por todos por esse motivo. Mas Clarice era a filha do Sr.Gastor, e isso a fazia ser a mais legal das pessoas.
Ela odiara o fato dos outros se aproximarem dela pela sua genética, era totalmente contundente em suas opiniões por esse motivo.
cool vinha de acoolta. Pois Clarice vivia com um livro embaixo do braço. Assim era vista por todos: a garota que exala cultura!
Gostava desse adjetivo (se é que isso pode ser chamado de adjetivo).
Um dia Clarice na biblioteca, pesquisando Tolstói, encontrou uma carta dentro de Ana Karênina, que começava assim:

"O tempo muda várias coisas. As árvores da rua, a cor do céu, a cor do meus cabelos, as minhas convicções... Mas uma coisa ele não muda: a saudade de tempos velhos."

Não viu nada de diferente e importante nela. A devolveu ao livro e continuou sua saga a Tolstói.

19.08.2007